terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Enquanto isso na Luta de Classes...

“O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração”, filme Metropolis (1927).

“Levante a cabeça e nunca desista da luta”, filme Tempos Modernos (1936).

Um dia desses, eu e meu namorado Marcus estávamos falando sobre coisas que não deixam de ser atuais, mesmo tendo sido feitas há muitos anos ou décadas.

Não lembro porque, no meio do assunto, falei sobre o Filme "Tempos Modernos", do Charles Chaplin, que trata de forma crua e objetiva as relações de trabalho em meio à Revolução Industrial, que ainda influencia muitos comportamentos e valores até hoje.

Carlitos brinca de trabalhar em fábrica e garante risos

Aí ele me contou que antes do Chaplin, um diretor já havia pensando nisso. Trata-se do alemão Fritz Lang. O Marcus me falou que assistiu a um filme mudo, chamando "Metropolis", dirigido por Lang em 1927 que, além de tratar da luta de classes, também tinha efeitos especiais em plena década de 20. Fiquei curiosa e fui atrás, pois pensava que "Tempos Modernos", de 1936, já era visionário demais para a época.

Baixei o filme no site Sétimo Projetor - que inclusive recomendo - e a primeira coisa que pensei quando terminei de assistir foi: "quanta coisa precisamos conhecer nessa vida".

O mais engraçado é que assisti "Tempos Modernos" na adolescência. Foi o primeiro contato com um filme com temática social tão direta. É claro que influenciou nas minhas opções políticas no futuro. Ficou pra mim como algo definitivo, uma referência quase única.

Assisti ao filme de Chaplin há mais de 10 anos - bem mais - e resolvi ver novamente para descobrir semelhanças e diferenças entre as duas películas.

A diferença principal é o estilo. Chaplin, como todos sabem, abusa do humor, da ironia e até do pastelão em grande parte dos seus filmes. É humor com conteúdo, mas não deixa de ser humor. “Tempos Modernos” mescla uma porção de acontecimentos dramáticos que, na visão de Chaplin, ficam leves e engraçados. O filme é parcialmente falado, de acordo com os recursos disponíveis na época.

Já Lang estruturou a trama de “Metropolis” com a dramaticidade que um filme de temática social merece ter. A música é mais comovente, a expressão dos atores também – algo que era muito importante no cinema mudo.

Cena de "Metropolis": filme é carregado de dramaticidade

Em “Tempos Modernos”, Carlitos – o eterno personagem – faz parte do proletariado. Trabalha numa indústria sem condições laborais, sem equipamentos de proteção e fica transtornado com a repetição dos movimentos pelos quais é obrigado a fazer na etapa da produção em que atua.

O filme mostra que os trabalhadores já estavam organizados pelos movimentos sindicais e que alguns tinham consciência de seu poder de pressão sobre a sociedade. Também deixa evidente a busca da mais-valia e do lucro pelos detentores dos meios de produção, uma visão bem marxista. Emblemática a cena em que é apresentado ao dono da fábrica um protótipo de máquina para dar o almoço aos empregados para eles não pararem de trabalhar.

Trabalhadores organizados em frente a fábrica em cena de "Tempos Modernos"

“Metropolis”, apesar de tratar do mesmo tema – a divisão de classes após a Revolução Industrial – coloca a situação em outro patamar, numa história futurística – o filme se passa em 2026 – com toques de ficção científica até. Enquanto “Tempos Modernos” mostra um protótipo de máquina de dar comida, em “Metropolis”, um cientista cria um andróide. Isso mesmo. Alguém já pensava nessas coisas, muito antes do que poderíamos imaginar.

Andróide criado por um cientista dá o tom na trama de "Metropolis"

A história dirigida por Lang se passa numa cidade fictícia dividida por andares. Os de cima são habitados pelos intelectuais e ricos. Os de baixo pelos operários de uma fábrica que, digamos, é o motor da metrópole. Mas aí que entra outra diferença em relação a “Tempos Modernos”. Em “Metropolis”, os habitantes dos andares não tinham relação entre si, eram totalmente alienados. Quando os trabalhadores descobrem o que está por trás de toda aquela exploração, iniciam uma revolta. Tudo de forma muito dramática e comovente.

Vista da cidade de Metropolis, no filme de Fritz Lang

A figura feminina também é diferente nos dois filmes. “Metropolis” faz uma suposta ode a alemã Rosa de Luxemburgo, uma das principais pensadoras de esquerda do século passado que morreu oito anos depois que o filme foi lançado. É uma mulher, a personagem Maria, cândida e terna, que incentiva os trabalhadores a procurar um “mediador”. Ou seja, já havia a necessidade organização sindical e representação trabalhista. Lang deixa isso claro, porém, de forma poética e, em alguns momentos, utópica.

Semelhança de Maria com Rosa de Luxembrugo não deve ser mera coincidência

Em “Tempos Modernos”, a figura feminina é uma jovem que começa a “namorar” Carlitos e encarna o papel de companheira, ao lado dele nos momentos de dificuldade e alegria. Junto com o personagem de Chaplin, ela compartilha o sonho de uma vida feliz e tranquila, longe das pressões daquele mundo moderno e capitalista. Detalhe: nas cenas em que os dois aparecem juntos, a belíssima canção “Smile”, ainda instrumental, embala o flerte desajeitado dos dois.

"Tempos Modernos" mostra o sonho de uma vida feliz sem pressões do capitalismo

Sim, são dois filmes com viés de esquerda. As tramas são diferentes, mas há por trás das histórias o ideal de uma alternativa ao capitalismo. Nem Lang, nem Chaplin deixam claro que o socialismo seria o melhor caminho, mas apontam, como direção, pelo menos, diminuir a desigualdade social.

Cena final de "Tempos Modernos": Chaplin deixa mensagem de "não desistir da luta"

A principal coincidência – ou não, pois Lang pode ter sido uma das influências de Chaplin, é como se dá a concentração de poder. Tanto o prefeito de “Metropolis”, quanto o dono da fábrica onde Carlitos trabalha, controlam tudo com algo que se parece um circuito interno de TV. É o poder nas mãos de poucos. Pena que, até onde o socialismo foi aplicado, isso também aconteceu. Prova que além de dois grandes cineastas, Lang e Chaplin eram dois sonhadores. Mas pra quê serve o cinema mesmo?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Belém 396

Até que um dia eu decidi romper. Eu não queria mais morar lá por vários motivos, mesmo sabendo que iria deixar muita coisa para trás.

Nós tínhamos muitas diferenças. Eu queria crescer, ela insistia em ficar sempre do mesmo jeito. Eu queria o frio. Ela continuava quente e abafada.

Eu queria paz. Ela continuava violenta e eu vivia amedrontada achando que poderia morrer em qualquer esquina.

Até que chegou o dia. E quando ele chegou, veio a realidade. Será que teríamos mesmo que nos separar? Será que não haveria outra chance?

Não, não haveria.

Nunca esqueço a sensação de vê-la se distanciando pela janela do avião. O que antes me engolia, tomava conta de mim, se tornava, em poucos minutos, apenas miniaturas, tudo muito pequeno.

Nos ouvidos, o ruído da minha infância, o barulho da cidade, o barulho das folhas das mangueiras. Coisas que não iriam mais fazer parte da minha vida diariamente.

E aquela dança que bate os pés, que roda a saia, que levanta os braços? Veria em outro lugar?

E aquela santa na berlinda? Será que ela viria comigo? Será que ela continuaria me cobrindo com o manto?

E aquele rio? O rio que testemunhou algumas decisões importantes ao sabor do bombom de cupuaçu...

Sim, tudo foi sumindo. As luzes sumiram. Logo, logo, pela janela do avião, eu só via as nuvens.

“E tu ficaste serena, nas entrelinhas do sonho, nos descaminhos do rio, olhando pra nós escondida, com os teus olhos de rio”, Nilson Chaves e Vital Lima

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Algo sobre a minha vida

Em meio a tantas decisões a tomar na 1a semana do ano, resolvi priorizar a saúde. Sofro de uma doença crônica chamada colite ulcerativa, é uma doença inflamatória intestinal. Um problema sério que me afeta emocionalmente e tem me tirado a paz.

Tenho sentido muita dor, apesar de estar fazendo o tratamento correto, preciso vencer esse período de crise, quando a doença está em atividade. Peço forças a Deus para me ajudar nessa luta.

Quase sempre me queixo de dor aqui no Facebook e alguns amigos perguntaram o que eu tinha. Agradeço a preocupação e podem ter certeza que vou precisar de vocês nessa fase.

Se eu pudesse, não deixaria mais o meu namorado preocupado e sem saber o que fazer quando sinto dor e passo mal. Imagino como deve ser difícil pra ele essa sensação de impotência. Ele, ao mesmo tempo, precisa ter paciência em meio ao nervosismo. Queria dizer ao Marcus que eu o amo muito e sei que ele faz o que pode.

A mesma coisa acontece com a minha família. Meu pai esteve em Brasília no fim de ano, quando eu estava de licença médica, e viu meu sofrimento. A minha amiga Ercilia Wanzeler que ficou hospedada na minha casa antes dele também viu. Meu pai ficava nervoso, perguntando porque essa doença não tem cura, se não é melhor trocar de médico.

A minha médica, Helenice Arantes de Faria, é a melhor especialista em doença inflamatória intestinal de Brasília. Ele atende no Hospital de Base, que é da rede pública. Como os meus medicamentos são caros, os recebo de graça na Farmácia de Alto Custo, por meio do Ministério da Saúde. Ou seja, como vou trocar de médico? Pelo plano de saúde, não teria todos esses cuidados.

Por conta da colite, tive que abandonar um sonho, o Leandro Mazzini, o Carlos André Duda, o Gustavo Krieger e o Rudolfo Lago sabem bem do que estou falando. Me mudei pra Brasília com uma mala na cabeça com o desejo de ser repórter de política.

Mas a experiência como assessora parlamentar no Senado - apesar de ter aprendido muito e conhecido pessoas incríveis como a Georgina Tolosa Galvão, o Luiz Araújo, a Marinor Brito, o Edmilson Rodrigues, o Juliano Medeiros, a Romênia Macedo e tantos outros - não trouxe só coisas boas pra mim. Era muito trabalho, estresse, não tinha vida pessoal. A doença, que foi diagnosticada em 2006, voltou de repente em 2009. Após sucessivas crises, precisei ser internada.

Nos dez dias que fiquei no hospital, pensei bem sobre o que estava fazendo da minha vida. Primeiro, eu deveria ter iniciado o tratamento em 2006. Não o fiz porque após a colonoscopia, eu tive uma melhora e virei a página.

Passei seis anos da minha vida trabalhando duro em Belém. A Cleide Pinheiro, a Nara Bandeira e o Gerson Nogueira acompanharam. Na Temple Comunicação, aprendi tudo que eu precisava para então seguir o meu caminho. No Diário do Pará, cobri política – começou então a construção do sonho de morar em Brasília - e fui premiada. Convivi, nesses dois lugares, com profissionais e colegas incríveis, alguns se tornaram amigos.

E na hora de ir embora, recebi o apoio inesquecível dos fotógrafos Wagner Meier, Tarso Sarraf e Raimundo Paccó. Principalmente, o Wagner Meier, que ficou do meu lado até o fim, sem me deixar desistir. São amigos que sinto muita falta. Mas a vida, como diria Vinicius de Moraes, é arte dos encontros e desencontros.

A família também foi fundamental. Meus pais com todo o apoio possível e as minhas primas Jéssyca e a Joyce, ombros na hora das lágrimas e risadas. Elas sabem exatamente por tudo que passei e passo.

Pois bem, após toda essa dedicação, incluindo o período no Senado, me dei conta de que precisava parar. Que se eu fosse repórter de política em Brasília, minha vida ia ficar de pernas pro ar e eu precisava assumir que estava doente. Pensei em voltar pra Belém, mas recebi uma proposta de trabalho para meio período. Resolvi ficar. Tudo melhorou muito, mas a doença quer voltar. A crise é bem menos intensa do que a que me levou ao hospital. Mas não deixa de ser dolorosa e difícil.

Tenho certeza que se já passei por coisa pior, devo superar essa fase.

Aos amigos, principalmente aos jornalistas, peço: cuidem da saúde, tenham vida pessoal, dêem atenção a suas famílias. A vida não é só trabalho. Não há glamour no jornalismo. Jornalismo, para quem atua na área como assessor ou repórter em empresa de comunicação, seja lá onde for, é trabalho, como qualquer outro. Não significa ser melhor do que ninguém. Falo por experiência própria: catar os cacos depois é muito pior.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Buscando explicações



O jornalista Daniel Piza faz parte do meu ranking dos melhores jornalistas do Brasil e das minhas referências para trabalhos acadêmicos. Lembro que elaborei a primeira lista em 2006, quando concluí a minha monografia de conclusão do curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Federal do Pará (UFPa). Ele estava lá porque li um ou dois textos dele sobre futebol e fiquei encantada. Desde então, nunca mais saiu.

Sim, eu tenho uma lista de referências. Todo jornalista precisa ter, mesmo que ele trabalhe em redação ou em assessoria, agência, padaria ou coisa do tipo. É sempre bom ter a sensação que há colegas que são melhores, que precisam ser lidos, que há muito que aprender com eles.

Porém, mesmo com a qualidade do texto indiscutível, o que eu mais admirava no Piza era a capacidade dele em transitar nos universos erudito e popular, de uma forma simples, sem arrogância, com muito bom humor.

Em um mundo ideal, um jornalista que conhecia a vida e a obra do escritor brasileiro Machado de Assis como Daniel Piza, nunca entraria num estádio de futebol. Não se misturaria com populares. Frequentaria apenas as rodas intelectuais. Ele não era assim. Conseguia conciliar suas preferências e parecia feliz em fazer isso.

Que há relação entre literatura e futebol, todos sabem. É só ler a primeira crônica que Nelson Rodrigues fez para explicar porque Garrincha era a “alegria do povo”. O texto está no livro “À Sombra das Chuteiras Imortais”.

Talvez por isso, Daniel Piza tenha feito essa relação – não só nos textos, mas no seu estilo de vida – com tanta tranqüilidade.

Até agora, busco explicações para a morte dele, precoce, brusca, no último final de semana de 2011. Porque é difícil de acreditar que a vida é tão frágil e que a morte não escolhe idade, sucesso profissional ou nível de inteligência. Ao fim, todos nos tornamos a mesma coisa. A matéria que não serve mais pra nada no dia seguinte, assim como nos jornais.

A única coisa que sei, é que o nome dele continuará na minha lista. Para sempre.