“Levante a cabeça e nunca desista da luta”, filme Tempos Modernos (1936).
Um dia desses, eu e meu namorado Marcus estávamos falando sobre coisas que não deixam de ser atuais, mesmo tendo sido feitas há muitos anos ou décadas.
Não lembro porque, no meio do assunto, falei sobre o Filme "Tempos Modernos", do Charles Chaplin, que trata de forma crua e objetiva as relações de trabalho em meio à Revolução Industrial, que ainda influencia muitos comportamentos e valores até hoje.
Carlitos brinca de trabalhar em fábrica e garante risosAí ele me contou que antes do Chaplin, um diretor já havia pensando nisso. Trata-se do alemão Fritz Lang. O Marcus me falou que assistiu a um filme mudo, chamando "Metropolis", dirigido por Lang em 1927 que, além de tratar da luta de classes, também tinha efeitos especiais em plena década de 20. Fiquei curiosa e fui atrás, pois pensava que "Tempos Modernos", de 1936, já era visionário demais para a época.
Baixei o filme no site Sétimo Projetor - que inclusive recomendo - e a primeira coisa que pensei quando terminei de assistir foi: "quanta coisa precisamos conhecer nessa vida".
O mais engraçado é que assisti "Tempos Modernos" na adolescência. Foi o primeiro contato com um filme com temática social tão direta. É claro que influenciou nas minhas opções políticas no futuro. Ficou pra mim como algo definitivo, uma referência quase única.
Assisti ao filme de Chaplin há mais de 10 anos - bem mais - e resolvi ver novamente para descobrir semelhanças e diferenças entre as duas películas.
A diferença principal é o estilo. Chaplin, como todos sabem, abusa do humor, da ironia e até do pastelão em grande parte dos seus filmes. É humor com conteúdo, mas não deixa de ser humor. “Tempos Modernos” mescla uma porção de acontecimentos dramáticos que, na visão de Chaplin, ficam leves e engraçados. O filme é parcialmente falado, de acordo com os recursos disponíveis na época.
Já Lang estruturou a trama de “Metropolis” com a dramaticidade que um filme de temática social merece ter. A música é mais comovente, a expressão dos atores também – algo que era muito importante no cinema mudo.
Cena de "Metropolis": filme é carregado de dramaticidadeEm “Tempos Modernos”, Carlitos – o eterno personagem – faz parte do proletariado. Trabalha numa indústria sem condições laborais, sem equipamentos de proteção e fica transtornado com a repetição dos movimentos pelos quais é obrigado a fazer na etapa da produção em que atua.
O filme mostra que os trabalhadores já estavam organizados pelos movimentos sindicais e que alguns tinham consciência de seu poder de pressão sobre a sociedade. Também deixa evidente a busca da mais-valia e do lucro pelos detentores dos meios de produção, uma visão bem marxista. Emblemática a cena em que é apresentado ao dono da fábrica um protótipo de máquina para dar o almoço aos empregados para eles não pararem de trabalhar.
Trabalhadores organizados em frente a fábrica em cena de "Tempos Modernos"“Metropolis”, apesar de tratar do mesmo tema – a divisão de classes após a Revolução Industrial – coloca a situação em outro patamar, numa história futurística – o filme se passa em 2026 – com toques de ficção científica até. Enquanto “Tempos Modernos” mostra um protótipo de máquina de dar comida, em “Metropolis”, um cientista cria um andróide. Isso mesmo. Alguém já pensava nessas coisas, muito antes do que poderíamos imaginar.
Andróide criado por um cientista dá o tom na trama de "Metropolis"A história dirigida por Lang se passa numa cidade fictícia dividida por andares. Os de cima são habitados pelos intelectuais e ricos. Os de baixo pelos operários de uma fábrica que, digamos, é o motor da metrópole. Mas aí que entra outra diferença em relação a “Tempos Modernos”. Em “Metropolis”, os habitantes dos andares não tinham relação entre si, eram totalmente alienados. Quando os trabalhadores descobrem o que está por trás de toda aquela exploração, iniciam uma revolta. Tudo de forma muito dramática e comovente.
Vista da cidade de Metropolis, no filme de Fritz LangA figura feminina também é diferente nos dois filmes. “Metropolis” faz uma suposta ode a alemã Rosa de Luxemburgo, uma das principais pensadoras de esquerda do século passado que morreu oito anos depois que o filme foi lançado. É uma mulher, a personagem Maria, cândida e terna, que incentiva os trabalhadores a procurar um “mediador”. Ou seja, já havia a necessidade organização sindical e representação trabalhista. Lang deixa isso claro, porém, de forma poética e, em alguns momentos, utópica.
Semelhança de Maria com Rosa de Luxembrugo não deve ser mera coincidênciaEm “Tempos Modernos”, a figura feminina é uma jovem que começa a “namorar” Carlitos e encarna o papel de companheira, ao lado dele nos momentos de dificuldade e alegria. Junto com o personagem de Chaplin, ela compartilha o sonho de uma vida feliz e tranquila, longe das pressões daquele mundo moderno e capitalista. Detalhe: nas cenas em que os dois aparecem juntos, a belíssima canção “Smile”, ainda instrumental, embala o flerte desajeitado dos dois.
"Tempos Modernos" mostra o sonho de uma vida feliz sem pressões do capitalismoSim, são dois filmes com viés de esquerda. As tramas são diferentes, mas há por trás das histórias o ideal de uma alternativa ao capitalismo. Nem Lang, nem Chaplin deixam claro que o socialismo seria o melhor caminho, mas apontam, como direção, pelo menos, diminuir a desigualdade social.
Cena final de "Tempos Modernos": Chaplin deixa mensagem de "não desistir da luta"A principal coincidência – ou não, pois Lang pode ter sido uma das influências de Chaplin, é como se dá a concentração de poder. Tanto o prefeito de “Metropolis”, quanto o dono da fábrica onde Carlitos trabalha, controlam tudo com algo que se parece um circuito interno de TV. É o poder nas mãos de poucos. Pena que, até onde o socialismo foi aplicado, isso também aconteceu. Prova que além de dois grandes cineastas, Lang e Chaplin eram dois sonhadores. Mas pra quê serve o cinema mesmo?
