Até que um dia eu decidi romper. Eu não queria mais morar lá por vários motivos, mesmo sabendo que iria deixar muita coisa para trás.
Nós tínhamos muitas diferenças. Eu queria crescer, ela insistia em ficar sempre do mesmo jeito. Eu queria o frio. Ela continuava quente e abafada.
Eu queria paz. Ela continuava violenta e eu vivia amedrontada achando que poderia morrer em qualquer esquina.
Até que chegou o dia. E quando ele chegou, veio a realidade. Será que teríamos mesmo que nos separar? Será que não haveria outra chance?
Não, não haveria.
Nunca esqueço a sensação de vê-la se distanciando pela janela do avião. O que antes me engolia, tomava conta de mim, se tornava, em poucos minutos, apenas miniaturas, tudo muito pequeno.
Nos ouvidos, o ruído da minha infância, o barulho da cidade, o barulho das folhas das mangueiras. Coisas que não iriam mais fazer parte da minha vida diariamente.
E aquela dança que bate os pés, que roda a saia, que levanta os braços? Veria em outro lugar?
E aquela santa na berlinda? Será que ela viria comigo? Será que ela continuaria me cobrindo com o manto?
E aquele rio? O rio que testemunhou algumas decisões importantes ao sabor do bombom de cupuaçu...
Sim, tudo foi sumindo. As luzes sumiram. Logo, logo, pela janela do avião, eu só via as nuvens.
“E tu ficaste serena, nas entrelinhas do sonho, nos descaminhos do rio, olhando pra nós escondida, com os teus olhos de rio”, Nilson Chaves e Vital Lima
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