segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sujando Sapatos

Foto: Diário do Pará

O jornalista Ismael Machado já percorreu muitos quilômetros por terra, água e ar para mostrar aos leitores como vive o povo da Amazônia, suas histórias, encantos e dramas. Parte dessas experiências está no livro “Sujando os Sapatos”, uma coletânea de 184 páginas, lançada pelo jornal “Diário do Pará”, com 19 reportagens mostrando temas desde o garimpo no interior do Pará ao cotidiano do centro comercial de Belém.

Ismael começou no jornalismo em 1991 no jornal “Diário da Serra”, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Foi repórter em vários veículos de comunicação, correspondente do jornal “O Globo” na região Norte e hoje é repórter especial do jornal “Diário do Pará”, de Belém. Com o seu estilo “contador de histórias”, se especializou em matérias humanizadas, com foco nos personagens e sua ambientação.

O livro foi lançado em agosto e o repórter, que foi colega de redação e é amigo pessoal da autora que vos escreve, falou ao Ideias Publicáveis sobre o trabalho.

Como surgiu a ideia de lançar um livro?

Ismael Machado: A partir da leitura de livros similares e da perspectiva de que eu já tinha um material que pudesse também ganhar outro formato que não a perenidade do jornal. Foi um pouco para contar a minha própria história e, ao mesmo tempo, sinalizar para essa possibilidade de uma literatura jornalística atual aqui no Pará.

Como foi o processo de escolha das reportagens? Você selecionou sozinho ou contou com a ajuda de colegas?

Ismael: Enviei 30 reportagens a amigos, jornalistas em sua maioria e pedi para que eles indicassem as que considerassem melhores. Daí resultou essa lista final com 19 livros. Foi divertido esse processo.

Qual a matéria, que está no livro, deu mais trabalho tanto no processo de apuração quanto de acesso ao local e às fontes?

Ismael: De verdade, não vi dificuldades na realização das matérias. É claro, alguns locais são mais distantes que outros, mas isso não me é dificuldade. Eu gosto muito de viajar. Eu não compartilho muito da ideia de que as coisas precisam ser dolorosas, que esse ofício traz dor, sofrimento, expiação. Eu me divirto e me emociono ao fazer. Eu gosto muito e acaba sendo um prazer maior. Há, no entanto, a questão de que alguns assuntos são mais densos que outros. Isso mexe um pouco com teu olhar...mas faz parte.

Qual a matéria que deu mais prazer em escrever?

Ismael: Difícil dizer... Gosto muito da reportagem que abre o livro, com a história de três irmãs velhinhas que moram sós num casarão centenário em Belém. É um texto cuidadoso que lida com o silêncio das palavras. Mas é complicado... Geralmente, cada texto tem uma história diferente e isso faz com que haja prazeres diferentes.

Trabalhar na Amazônia é mais vantajoso para os repórteres que procuram boas histórias e imagens? Ou isso é possível em qualquer lugar?

Ismael: Amazônia é o lugar onde as histórias, boas e trágicas, novas e ancestrais, ocorrem. É claro que é possível fazer isso em qualquer lugar, mas a Amazônia tem um quê de especial.

Ao longo da carreira, você se especializou em escrever matérias com textos mais longos, focadas no lado humano, na paisagem, nos personagens. Com a evolução das mídias digitais, que prioriza a notícia factual e os textos curtos, alguns teóricos do jornalismo consideram que esse estilo está fadado ao fracasso. Qual a sua opinião a respeito?

Ismael: Perguntei isso a Eliane Brum e ela me respondeu que o texto dela mais lido na internet equivaleria a 20 páginas de revista. Acredito que, ao contrário, esse tipo de texto há de salvar o jornalismo impresso, já que ele irá mais fundo. O rápido vai estar na internet.

Alguns jornalistas dizem que é melhor não haver envolvimento emocional entre repórter e fonte. Mas diante das situações em que você apura as reportagens, isso é possível? Algum entrevistado já tirou teu sono ou te emocionou, te fez chorar?

Ismael: Jornalista que diz isso nunca fez reportagem de verdade. Eu não sou um robô. Não sou um ser separado do que digo e faço. É meio coisa de clichê de jornalismo isento, neutro, objetivo. Como eu não acredito em Papai Noel...

Você tem algum cuidado especial quando escreve matérias sobre assuntos trágicos ou de grande repercussão?

Ismael: O cuidado que se deve ter sempre. De saber dosar as medidas. Saber os teus limites. Saber o limite do outro. Respeitar espaços. Ser gente e não mero jornalista nessas horas.

Qual o conselho que deixa para os jovens jornalistas?

Ismael: Conselho? Não gosto muito disso, não. Mas acho que a curiosidade pelo mundo é essencial. Sempre.

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