quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O possível

Lula by Tarso Sarraf

Lula foi o primeiro presidente que vi pessoalmente na vida. A primeira vez foi em 2007. Eu era repórter do jornal “Diário do Pará”, em Belém. O evento foi em Breves, uma cidade do arquipélago do Marajó, no Pará, quase perto do Amapá. Um calor desgraçado, uns 40 graus na sombra, mas nunca me esqueço daquela imagem. A única praça do município lotada e o povo calado na hora que o Lula começou a falar. Nunca tinha visto aquilo.

Com um pouco mais de esforço, era possível ouvir a respiração das pessoas. Foi nesse momento que eu, mesmo com a minha formação e parco conhecimento sobre política, pude perceber a real dimensão que aquele homem estava alcançando. Que ele era amado pelos pobres – era de se esperar, admirado por intelectuais e setores da imprensa, eu já sabia. Mas havia algo além. Não era só amor, era doutrina.

E a prova está aí: Dilma Roussef. Mas conhecida por ter sido militante na luta armada na ditadura militar do que por qualquer outra coisa que tenha feito, apesar de possuir formação técnica e ter assumido cargos importantes. Sem experiência política e persuasão afinadas, ela conseguiu chegar lá: dia 1º de janeiro sobe a rampa do Palácio do Planalto como a primeira mulher presidente da República Federativa do Brasil.

Quando eu trabalhava no Senado descia do ônibus (sim, eu não tenho carro em Brasília) bem na frente do Palácio do Planalto. Via aquela rampa todos os dias e lembrava dos quatro presidentes que vi subi-la. Todos homens. O primeiro, Fernando Collor, um alagoano, parecia inteligente e firme, mas se enrolou num monte de escândalos e saiu antes da hora.

O segundo, Itamar Franco, um mineiro, trouxe consigo a marca do lugar de onde veio: reservas, discrição e simpatia. Conseguiu fazer algo que todos esperavam, o mínimo de calmaria na economia desenfreada do Brasil, herdada desde a Ditadura Militar e crises do Petróleo e afins.

O terceiro, Fernando Henrique Cardoso, um carioca com sotaque de paulista, era o que eu mais amava. Ele foi Deus pra mim por muito tempo até eu descobrir que não era bem assim. Mas ele acabou, sem querer, deixando um exemplo: que eu deveria estudar, estudar e estudar. Talvez ele nem imagine quantos jovens como eu na época atingiu. E sabem porquê? Ele não fazia questão de ser exemplo. Ele não falava para as pessoas: “olhem, eu não fui pobre como vocês, mas dentro do possível, estudem”. Ele não falava isso. Ele só falava em Max Weber, especulação, taxa cambial, que devíamos esquecer o que ele escreveu.

FHC é vaidoso mesmo, fala difícil, quer dar uma de intelectual escroto. E nem é tão assim. Pede pra ele falar da Ruth por dez minutos. Pronto, cai a máscara.

O quarto, Lula, o pernambucano, me surpreendeu. Ele também precisou mudar para ser um político de verdade. Antes do Planalto, era um militante partidário. Naquele momento, em Breves, notei o que faltou aos outros presidentes: se colocar como exemplo. Não está em questão o fato de Lula ter sido pobre, retirante, ter passado pelo chão de fábrica por causa de um curso de torneiro mecânico do Senai. Mas o fato de mostrar que é possível um ex-operário chegar à presidência da República por meio do processo democrático, do voto popular. Que isso não é o privilégio só de intelectuais, de gente rica, que concentra poder. Mostrar para a população que ela pode ter sua chance, que nem sempre é fácil, mas possível.

Depois de Lula, uma mulher assume a presidência. Tudo bem, que Dilma foi abençoada por ele, mas convenhamos, ela ganhou a eleição na disputa de votos. Está na hora dos pais olharem para suas filhas, esquecerem o machismo e o viés conservador e dizerem: "se ela conseguiu, você também pode" e ensiná-las a lutar para conseguirem o que querem. Mesmo sem um exemplo como esse, meus pais fizeram isso comigo. Me ensinaram a lutar. Não me arrependo de ter me colocado a disposição de aprender.

PS: A análise foi mais pessoal das minhas impressões dos presidentes do que política. Que o Brasil mudou nos últimos 16 anos, não temos dúvida. Mas ainda precisa avançar mais nas mudanças sociais, o que o Governo Lula até tentou, mas não conseguiu consolidar. Essas mudanças, como a erradicação de algumas doenças, da fome, da miséria, do analfabetismo, ainda são muito tímidas. Fica a dica, Dilma.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Uma carta para John Lennon



Querido John,

Quando você morreu, eu ainda não tinha nascido. Mas cresci ouvindo boas histórias a seu respeito. Minha mãe deve ter sido a primeira a falar de você pra mim quando eu ainda era criança. Eu não lembro bem como ela me contou tudo, mas o final era triste. Vez ou outra eu perguntava: por que? O que ele fez? Quem matou?

Um belo dia, você surgiu pra mim de outra forma. Não era o cara de jaqueta jeans, cabelo longo e óculos de aro redondo que aparecia na televisão ao lado de uma japonesa. Era um rapaz de terno, que tocava guitarra e gaita numa banda de rock in roll. Um homem com cara de menino, sorriso de menino, que parecia feliz. Você era o John, o parceiro do Paul, que tocava com o George e o Ringo.

Fico pensando: quem deu tantas alegrias, quem fez tantas pessoas descobrirem o que queriam, não merecia morrer daquele jeito e tão jovem. Mas a gente não sabe direito o que Deus projeta pra gente, John. Talvez esse mundo, que não mudou tanto nos últimos 30 anos - ainda há guerra, briga por poder, desigualdade – não era pra você.

Na semana passada, ouvi “Mother” e chorei muito. Eu não estava muito bem, mas todas as vezes que ouço essa música lembro que você não teve uma família estruturada, que tudo na sua vida deve ter sido mais difícil por isso. Eu tenho pai e mãe presentes e imagino a falta que eles fariam. E hoje – ao ter a dimensão da importância deles na minha vida – entendo as expectativas que você jogou em cima dos Beatles, da amizade com o Paul, do casamento com a Yoko.

E quando a gente joga muita expectativa em algumas coisas, acaba se decepcionando, não é? Foi o que aconteceu. Por isso, eu ainda me choco com algumas coisas que você falou ou compôs na carreira solo. Talvez você tenha se arrependido ou pedido desculpas. Não sei. Beatlemaníacos não sabem de tudo não. Não sabem que se passava realmente dentro da cabeça dos Beatles naquela época, nem o impacto real que a separação da banda trouxe pra você, Paul, George e Ringo. Esse sentimento é só de vocês.

Você não é culpado por nada, John. Você viveu como deveria viver. Fez suas músicas, teve suas experiências, tentou ser um bom pai e marido na medida do possível, não deixou de falar o que sentia, mesmo às vezes parecendo amargo ou rancoroso – principalmente com o Paul – nunca foi hipócrita. Com você aprendi muito. Aprendi que até dá pra mudar o mundo, mas sem olhá-lo pelas lentes cor de rosa. Aprendi que há mais realidade na vida do que sonho, que a gente não pode ficar se prendendo ao passado.

Pois é. Um dia você disse que esse sonho acabou. Mas é como eu costumo dizer. Você deve ter esquecido de falar que quando um sonho acaba, outro começa. Por isso, quando eu ficar triste, me leve para os campos de morango. Campos de morango para sempre.

Aletheia